Negócios em Emersão  ·  Vamos Emergir?  ·  Cadastre-se e ganhe 50 REC de bonus

Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia 

Redação Recifes
14 visualizações
Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia 

Uma inundação repentina atingiu vilas próximas à fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, nesta quarta-feira (26), conforme noticiado pelo Olhar Digital. A força da água destruiu casas, arrastou veículos e derrubou uma ponte sobre o rio Bhote Koshi. 

De acordo com a agência de notícias Reuters, as autoridades mobilizaram policiais, militares e helicópteros para as operações de busca e resgate. Mais de 350 corpos já foram retirados das áreas atingidas, mas a destruição de estradas e pontes, somada ao acúmulo de lama e detritos, dificulta o trabalho, e cerca de mil pessoas seguem desaparecidas.

O distrito montanhoso de Rasuwa está entre as regiões mais afetadas. Segundo testemunhas, a água destruiu assentamentos inteiros em questão de minutos. Imagens exibidas pela televisão e na internet mostram casas danificadas, carros levados pela correnteza e uma ponte metálica sendo arrastada pelo rio. 

Além dos moradores locais, centenas de turistas e peregrinos estrangeiros continuam sendo procurados pelas equipes de salvamento que atuam de forma incansável na região afetada.

Colapso de geleira gerou onda sísmica e fluxo de detritos

Os primeiros relatos de autoridades nepalesas e do Serviço Geológico Americano indicaram a possibilidade de um terremoto de magnitude 4.4 ter provocado o colapso do gelo. No entanto, os órgãos de monitoramento retificaram a informação. O registro sísmico não foi um terremoto tradicional, mas sim a vibração provocada pelo próprio impacto do desprendimento da geleira contra o solo. 

Em participação no programa Olhar Digital News, Waldemir Lima dos Santos, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), explicou que o deslocamento do gelo gerou uma dissipação de onda sísmica e desencadeou um movimento violento de detritos. “Foi mesmo em razão de um deslocamento de geleiras, o que, nessa região do Himalaia, hoje está sendo bastante comum”. Essa grande massa de lama, pedras e água desceu velozmente pelas vertentes das montanhas, engolindo tudo ao seu redor.

A ocorrência desses fenômenos extremos relaciona-se diretamente com o aquecimento acelerado das montanhas e com fatores climáticos globais. O aumento progressivo da temperatura global derrete as estruturas congeladas da região, formando acumuladores de água sobre o gelo. Esse volume infiltra-se na estrutura do relevo, desestabilizando o terreno e provocando o deslizamento gradual das encostas, processo que costuma ser fortemente intensificado pela atuação do fenômeno climático El Niño.

Segundo Santos, a influência do El Niño altera o padrão normal dos ventos conhecidos como monções e reduz o volume de chuvas do verão. Esse cenário favorece o acúmulo perigoso de reservatórios hídricos no topo da superfície congelada. “Já sabemos que a região do Nepal e a região do Himalaia, em geral, estão aquecendo rapidamente. A região abriga milhares de geleiras que estão derretendo e se desestabilizando”.

Leia mais:

Ocupação de risco no Nepal repete padrão de desastres no Brasil

O professor destacou que a dinâmica observada no território asiático apresenta semelhanças com catástrofes registradas frequentemente no Brasil, especialmente nas regiões serranas do Sudeste. A combinação natural entre um relevo inclinado e a presença de assentamentos humanos em locais desfavoráveis cria um cenário perfeito para graves perdas materiais e humanas. Quando as enchentes descem com força total, as moradias situadas em fundos de vale recebem todo o impacto do fluxo acumulado.

Ele ressaltou que a presença de populações em moradias vulneráveis é o fator chave para transformar um evento da natureza em uma grande tragédia social. “A própria configuração do relevo dá suporte para que isso aconteça: temos um relevo bastante acidentado, uma combinação de declividade muito forte e a presença das pessoas, que é a configuração necessária para que haja desastre. Só há desastre onde há população”.

A vulnerabilidade das famílias do Nepal é consideravelmente agravada pelas difíceis condições socioeconômicas enfrentadas pelo país. Sendo um dos países menos desenvolvidos de todo o continente asiático, grande parte de seus moradores sobrevive da agricultura informal ou vive abaixo da linha da pobreza. Essa grave limitação financeira obriga milhares de cidadãos a habitar encostas íngremes e áreas inóspitas, ampliando brutalmente os riscos durante a ocorrência de enchentes repentinas nas montanhas.

Diante do risco iminente de novos episódios de deslizamento e enchentes nas próximas horas, autoridades locais orientaram moradores próximos ao rio Bhote Koshi a abandonar suas casas imediatamente e procurar áreas mais elevadas. Especialistas defendem a criação urgente de sistemas de monitoramento e alerta para salvar vidas, além de políticas públicas de habitação que permitam a realocação definitiva e segura dessas populações para longe dos canais de escoamento.

Experiência brasileira aponta caminhos para redução de riscos

Santos lembra que o Brasil já adotou iniciativas preventivas semelhantes e bem-sucedidas em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais após episódios de forte destruição ambiental. 

Para o especialista, a criação de alertas e a mudança de endereço das comunidades mais expostas são passos indispensáveis. “Infelizmente, é preciso retirar as pessoas das áreas com maior probabilidade de serem atingidas e levá-las para as áreas mais altas”. 

Ele reconhece, porém, que executar essa remoção esbarra na extrema vulnerabilidade socioeconômica e na informalidade em que vive a população nepalesa. “Isso é muito difícil, porque a gente está falando de um país em que as condições de moradia não são muito boas. Uma população que vive, em sua grande maioria, na informalidade.” 

Essa tragédia reforça que o monitoramento de geleiras e a implantação de redes de alerta precoce são urgências operacionais na região do Himalaia. Enquanto governos locais e órgãos internacionais contabilizam os danos socioeconômicos e buscam os desaparecidos, o evento consolida a necessidade de integrar dados geológicos a planos urbanos eficazes para impedir que o avanço da ocupação sobre leitos fluviais continue multiplicando o saldo de vítimas.

O post Desastre no Nepal expõe perigo crescente no Himalaia  apareceu primeiro em Olhar Digital.

Acompanhe a Recifes.net

Gostou desta leitura? Siga a Recifes nas redes e receba as proximas pautas no WhatsApp.

Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
Compartilhar:

Comentários

Seja o primeiro a comentar!